Artistas - Por Cidão em 10/07/2007 06:49 - 5 comentários

Rebel MC, o pai do Jungle

Tags:

rebelmc001.jpg

Você, Junglist de carteirinha, certamente deve ter inúmeras e vagas desconfianças sobre o surgimento do Ragga-Jungle e do Drum and Bass dentro da e-music. Mas fique sabendo que esses estilos são derivados do pionerismo de uma pessoa: Rebel MC. Um dos nomes mais importantes e aclamados de todos os tempos dentro da cena Hip-Hop, Jungle e Drum and Bass inglês, responsável por ser um dos primeiros a incorporar elementos do Reggae, Dancehall e Hip-Hop na Dance Music.

Em meados dos anos 80, Michael West aka Rebel MC havia se juntado ao grupo de Hip-Hop Double Trouble, formado por Michael Menson, Karl Brown (também conhecido como Dj Karl “Tuff Enuff” Brown) e Leigh Guest que conseguiram um feito inédito naquela época: tornaram-se os primeiros caras do Hip-Hop a freqüentar as “top parades” inglesas, tornando-se verdadeiros “pop-rappers” dentro do Reino Unido. (Quem não se lembra de “Just Keep Rockin” e “Street Tuff”, ambas de 1989, que foram muito tocadas no boom da House e do Hip-House?)


“Just Keep Rockin” by Double Trouble tinha uma fórmula genial: Um Ska-Pop com levada Hip-Hop e um quê de House no melhor estilo. Esse hit foi um dos responsáveis por levar às massas o Hip-House, estilo derivado do House que mesclava vocais de Hip-Hop.

No entanto, devido ao estilo, ao conteúdo das tunes e a um relativo sucesso dentro do Reino Unido, Rebel criou um efeito contrário na comunidade Hip-Hop britânica que rapidamente o “queimou”, considerando um verdadeiro “vendido”. Mesmo o lançamento do seu primeiro álbum, “Rebel Music” (Desire, 1990), poucos foram aqueles do “movimento” que ainda se mantiveram crédulos sobre a originalidade musical de West.

“Rebel Music” lhe rendeu alguma grana e deu um background para lançar outro álbum, o “Black Meaning Good” (Desire, 1991). Este álbum representa uma guinada de 180 graus na musicalidade de West. Misturando o seu “pop-rap” com Reggae, Hip-Hop e elementos do emergente Jungle (não necessariamente o Jungle que conhecemos hoje, derivado do Ragga-Jungle, mas a música assim chamada que era formada pelos Toasters jamaicanos com beats mais rápidos e influências de Dancehall), Rebel cria um trabalho totalmente inovador. Lançava-se nesse momento as bases para o que viria a ser a “Rebel Music”.

“Black Meaning Good” havia conquistado a atenção dos “depredadores” e simpatizantes de outros estilos. Hoje ele é considerado um clássico absoluto, responsável por ser uma espécie de embrião do “proto-Jungle” e lançar as bases para o que viria a ser, dali alguns anos, o Ragga-Jungle. Ele havia construído um textura musical que agregava Breakbeat Hardcore em basslines de Reggae, o idealismo underground e “afro” do Hip-Hop e inseriu a figura dos “Toasters” Jamaicanos, como Barrington Levi, Tenor Fly, Dennis Brown em sua música.


“Wickedest Sound”


“Wickedest Sound” e “Tribal Base”, o vídeo aqui de cima, músicas do álbum Black Meaning Good, marcam o retorno de Rebel às suas raízes Hip-Hop e expõe um conjunto de elementos novos: beats acelerados, levada Reggae e Dancehall, a figura dos “Toasters” e a ênfase no Ragga.

Rebel MC havia feito um relativo sucesso com os caras do Double Trouble, mas ele deixou o “crew” em 1991 com a proposta de continuar produzindo coisas mais “roots” e com maior significado, como foi o caso do “Black Meaning Good”. Nesse ano ele também abandonaria o selo Desire para lançar o seu mais experimental álbum, o “Word Sound and Power”, de 1992, pela Big Life.

Incorporando timbres de Techno e House, Reggae, Ragga e ainda com o seu característico estilo Hip-Hop, Rebel MC começa a solidificar um estilo único e original dentro do Hip-Hop e adjacências, sendo ouvido tanto pela galera da House como Hip-Hop. Com uma vontade cada vez mais evidente em querer explicitar uma sonoridade que englobasse suas concepções musicais e idealismos, Rebel cria em 1992 o selo Tribal Base. Por este selo, Rebel lança alguns singles dos rappers Demon Boyz (três moleques entre 14 a 15 anos que o acompanhavam nas Gigs) que tiveram um relativo sucesso dentro da cena britânica de Hip-Hop por não seguirem a “cartilha” dos rappers americanos, além de assinar com artistas representativos da cena Hip-Hop e lançar seus próprios trabalhos.

Esse terceiro álbum se caracteriza por ser um mar de inspirações diversas do que propriamente um algum esforço concentrado de experimentalismos com Jungle ou criar algum estilo dentro do Hip-Hop ou da Dance Music. Entretanto, parece bem claro que Rebel ainda navegava em outras direções das quais o “Black Meaning Good” foi capaz de apontar. Os singles “Rich Ah Getting Richer” e “Humanity”, ambos lançados pela Big Life, monstravam claramente em qual sentido sua mente estava querendo aportar.


“Humanity”


A temática social perceptível em “Rich Ah Getting Richer” e em “Humanity” se fazem mais presentes e contundentes, assim como a textura “Breakbeat”, mais acelerada, e os outros elementos inseparáveis, como o Ragga e as referências Reggae, dão as dicas sobre a “Rebel Music”. O Reggae na música tem um viés que vai além do ritmo em si. Ele na verdade faz referência ao Rastafari. Para West, hoje o Jungle é um “Reggae Urbano”.

Adotando uma estética híbrida do tipo Rave/Gangsta Jamaicano, Rebel iniciou seu novo selo, o X-Project, e começou a lapidar o que havia feito no álbum anterior. De fato agora, sua sonoridade ganhava ares de Ragga-Jungle com todos aqueles elementos ainda mais solidificados e mais incorpados. Nessa nova empreitada, Rebel contou com as contribuições decisivas de Dj Ron, Jumping Jack Frost aka Leviticus (que já veio ao Brasil) e lançou-se com outro nome, Conquering Lion.

Em 1993 o trio lançou os hits “Lion of Judah”, “Innah Sound” e “Dub Plate Special” que continham vocais enfaticamentes “Raggas“, bem no estilo “Ruffneck”, e samples de tiros e sirenes. Essas tunes causaram um verdadeiro furor em muitas raves do Reino Unido e marcam de fato a concretização do Ragga-Jungle. Em 1994 os singles “Code Red” e “Phenomenon” causaram outro grande impacto, sendo responsáveis pela disseminação da sonoridade e do estilo “Junglist” nas raves e clubs. Nota-se nesse momento um predomínio e uma maior ênfase da postura “Ragga Gangsta” que se preocupa em passar os conflintos e modo de vida urbano. “A música vem das ruas, ela é o retrato do que o irmãos vivem”.

Tinha-se até esse momento todos os elementos para o Ragga-Jungle: o tom e a sonoridade “gangsta” trazida da cultura Yardie, o tema “gueto”, basslines “gordos” e velozes do Reggae, beats acelerados do Hip-Hop, timbres e “noises” do Techno, o foco “festivo” do Dancehall, a postura “espiritual” do Reggae e o estilo Junglist das ruas de ser. (Observa-se que o primeiro uso documentado do termo Junglist é de uma música do próprio Rebel MC, que possui o seguinte trecho: “Rebel got this chant – ´alla the junglists”).


Em 1994, “Original Nuttah”, do Shy FX e UK Apache, tornou-se um clássico absoluto do “Ragga-Jungle-Gangsta”. Os elementos do Ragga e da cultura Yardie/Gangsta das ruas, passou a definir o novo Jungle, o Ragga-Jungle.

É importante notar que o Jungle nas comunidades anglo-caribenhas era antes de tudo um estilo de vida e, de certo modo, refletia a cultura Rastafari. Socialmente falando, o Rastafari é uma resposta à segregação racista que os negros haviam experimentado durante anos. Na Jamaica, os negros formavam a base da sociedade enquanto os brancos, com a religião cristã e o sistema de governo, estavam no topo. O encorajamento de Marcus Moshiah Garvey, ativista jamaicano, aos negros terem orgulho de si mesmos e de sua herança africana inspiraram os Rastas a abraçar todas as coisas africanas. A valorização da origem africana era o tema central do Rastafarismo. Estar próximo da natureza, da savana africana e de seus leões, em espírito, se não fisicamente, é o principal conceito que eles podem trazer da cultura africana.

O movimento Rastafari se espalhou muito pelo mundo, principalmente por causa da imigração e do interesse gerado pelo Reggae, mais notavelmente com Bob Marley. Por volta de 10% dos jamaicanos se identicam com Rastafaris. Muitos dos Rastafaris são vegetarianos, ou comem apenas alguns tipos de carne, vivendo pelas leis alimentares de Levítico e Deuteronômio no Velho Testamento.

Rebel MC é um seguidor contundente da crença Rastafari e o que ele faz atualmente na música é baseado nisso. Antes mesmo de se enveredar profundamente para o universo do Ragga-Jungle, ele havia lançado uma verdadeiro discurso social com a música “Rich Ah Getting Richer” junto com Little T. Foi apoiado por organizações como a “People Against Poverity and Opression Movement” e “Musicians Against War”. Rebel MC sempre foi fiel à ess causa e o seu trabalho gira em torno disso.


“Junglist” by Congo Natty, de 2004 – Esse vídeo reflete bem para onde Rebel MC quis focar a sua música. Sua música tem um papel de manter viva a identidade e cultura Junglist que, assim como o Reggae, remetem ao Rastafari.

O selo Tribal Bass foi gradualmente mudando para Congo Natty, e Rebel chegou a lançar algumas coisas com esse nome, antes de se estabelecer com o nome de Conquering Lion. Em 1995, Rebel lança oficialmente o selo Congo Natty lançando “Champion Dj”, uma tune feroz, feita com Black Star e com Top Cat, nomes ligados à “militância” Reggae/Dancehall, com ritmos essencialmente Ragga-Jungle. Por algum tempo, Rebel continuou produzindo Ragga-Jungle com Sweetie Irie, Bounty Hunter e Tenor Fly que forneciam os vocais para muitos das tunes que Rebel compunha. Ele também trouxe outros talentos como Peter Bouncer e Million Dan.

Entretanto, isso não seria o último sopro de Rebel MC no mundo. Apesar de seu sucesso com o seu novo selo (Rebel MC é ainda um dos poucos artistas da primeira onda de Hip-Hop britânico a continuar gravando ao longo dos anos até hoje), Rebel lançou o single “Junglist” (Congo Natty, 2004) sobre o nome de Rebel MC e segue mandando bronca com alguns hits de seu último álbum, o “Born Again” (Congo Natty, 2005).

Rebel mantém-se longe da imprensa, evita dar entrevistas, passa longe dos microfones e tem estado bem mais envolvido com o Garveyismo. Mas ele ainda continua produzindo tracks no bom estilo oldschool (é só olhar o último álbum do Rebel MC com o Tenor Fly) e concentrado esforços em relançar clássicos do Jungle.

Que se diga, Rebel MC foi um dos mais influentes e inovadores produtores de todos os tempos. É dele, sem vacilar, os merecidos méritos de pai do Ragga-Jungle/Jungle que lançaram as bases para o surgimento do Drum and Bass.

Serviço

Site oficial Congo Natty http://www.congonattymusic.com/
Discogs http://www.discogs.com/artist/Rebel+MC
RolldaBeats http://www.rolldabeats.com/artist/rebel_mc
Wikipedia http://en.wikipedia.org/wiki/Rebel_MC
Keep da Jungle Fire Burning – Knowledge Magazine



5 comentários

Você pode acompanhar os comentários deste artigo assinando o feed RSS. Não é permitido realizar comentários ou trackbacks.


Byte
10/07/2007 8:16

big materia… MR. Conquering Lion insiiideee… this is a original rudeboy and junglist mannnn


MA
10/07/2007 14:13

Just Keep Rocking é umas das músicas mais importantes da minha pasta de Midbacks, sem dúvida um clássico. Aliás, o local onde a ouvi pela primeira vez foi na Columbus (os cariocas mais veteranos da noite sabem onde ficava…), sem dúvida o melhor club que já fui, seguido da Factoria.


k-mell
03/09/2008 12:12

e o q falar das informçoes sobre o jungle,dnb,ragga,reggae,contidas nesses artigos?SENSSACIONAIS!!!!!!


Yes América
12/02/2009 13:06

É isso ai man falou com propriedade sobre o assunto!! respect


Renato Eleoterio
11/03/2009 14:30

Achei o que eu estava procurando…..jungle,jungle,jungle….Diva….valeu